A Ideologia do Boi
Esse texto é bem antigo, mas trata de assuntos totalmente atuais. O autor discorre sobre a passividade quase que bovina com que respondemos a diversos eventos em nossas vidas e o papel da educação como forma de nos enquadrar e nos regrar, para que nós nos tornemos esses seres, ou melhor, bois, que só esperam, não reclamam e aceitam tudo como está. Uma boa leitura. Concordo plenamente com as idéias do autor. Por favor, quem gostar divulgue para o máximo de pessoas e quem não gostar também divulgue!
A Ideologia do Boi, de Leôncio Basbaum
Recentemente apareceu um anúncio na TV do país, fazendo propaganda dos produtos de determinado frigorífico. Essa propaganda consistia em um desenho animado: um porquinho, pulando corda, dizia ao boi: – Preciso ficar forte e sadio; vou virar salsicha. E o boi respondia: – Eu também, ora!
Se esse porco fosse um ser humano teríamos um exemplo típico de alienação absoluta: prepara-se para ser comido e, pelo que se vê no desenho, com muita satisfação, pois foi criado, alimentado, engordado, para o fim específico de ser comido, frito, assado ou como cachorro-quente.
O singular é que encontramos no mundo dos homens um grande número de criaturas, nas quais supúnhamos – como homens que parecem ser – uma certa dose de consciência, que se deixam engordar para serem devoradas.
Nesse nosso mundo de alienações, de despersonalização e inconscientização crescente, encontramos duas categorias fundamentais: 1) os que já são ou que serão salsichas; 2) os que comem as salsichas. E uma categoria intermediária, igualmente importante, e do mesmo modo alienada e que por isso mesmo não tardará em ser transformada em salsicha e devidamente devorada: a dos pais, professores, intelectuais, sacerdotes, políticos, que preparam salsichas para o grupo 2.
Dentro desse espírito, a ideologia do porco, ou melhor, do boi, que é o símbolo da passividade, vemos criaturas humanas não somente forçadas a alienar-se vendendo sua força de trabalho, mas fazendo-o às vezes com a satisfação do dever cumprido. Homens e mulheres que vão para o trabalho, no qual empenham sua própria vida para gozo dos outros; jovens que vão para a guerra para serem mortos, sabendo que vão morrer, até com certa satisfação, acreditando que vão defender a civilização ocidental e cristã. E homens que se prestam ao papel de ensinar aos jovens que tudo isto é muito certo e muito justo.
O que se verifica, em resumo, é uma tendência a transformar os jovens em animais domesticados que marcham passivamente, como bois, carneiros ou porcos, para o matadouro sem saber que vão ser transformados em filés e salsichas.
Mas a alienação humana atingiu um grau muito mais aperfeiçoado, pois muitos sabem que estão caminhando para o matadouro, e, não obstante, seguem o seu caminho, aceitam o seu destino, como se isso estivesse pré-escrito no Livro do Tempo, destino inexorável e irreversível como o próprio tempo.
Como conseguir que o homem, nascido livre, se transforme em um boi, em um irracional domesticado? Pela educação.Os homens são levados a crer no sistema – sistema irredutível – ao qual não podem escapar, pois são educados para que não escapem.
Pelo trabalho, o homem se aliena. Pela educação, preparam-no para a alienação A educação é assim a maior arma de que dispõem os senhores da iniciativa privada, para que tudo continue como está. Para que continuem comendo tranqüilamente suas salsichas.
Educação e Enquadramento
Nenhuma palavra tem sido mais mistificada do que educação. Milhares de obras já foram publicadas por eminentes educadores, práticos ou teóricos, filósofos ou sociólogos, objetivando definir o termo. Todas ou quase todas essas definições, porém, não têm feito outra coisa senão aumentar essa mistificação e ao mesmo tempo torná-la ainda mais ambígua, pois essas definições mais do que nenhumas outras têm profundo sentido de classe. Ao defini-la, o autor da definição procura evidentemente ocultar esse sentido de classe, mas no ato de esconder-se, freqüentemente se revela. E isso acontece porque, consciente ou inconscientemente, os sábios que se preocupam com o assunto não levam em consideração o mundo dividido, já não digo em classes sociais, termo rejeitado pela sociologia burguesa, mas em categorias: a dos que vão ou devem ser salsichas, a dos que comem as salsichas, a dos que preparam as salsichas para serem comidas.
As definições de educação, por isso mesmo, são em geral abstratas e se referem, ou imaginam, a uma sociedade ainda desconhecida em que “as oportunidades são iguais para todos” e na qual os menos dotados são devidamente ajudados. Em quase todas as obras dos especialistas, confunde-se a instrução com a educação propriamente dita, quando na realidade, como observa o educador brasileiro Jose Quirino Ribeiro, a instrução é apenas “uma das condições indispensáveis embora não suficientes do processo educativo”. A instrução é uma condição aleatória da educação. Aquela se destina a levar aos jovens “conhecimentos úteis” desde a alfabetização aos dados fundamentais da ciência e da filosofia. Todavia, mesmo essa instrução é, na observação de Ortega y Gasset, “um meio de ocultar e não de divulgar”. A instrução deixa de ser, assim, o elemento fundamental que dá ao homem o conhecimento do universo e da História e do seu eterno devenir. Torna-se apenas parte da educação, como fez ver Anibal Ponce (Educación y lucha de Classes), o qual nos mostra ainda que, através da História, a instrução sempre foi considerada “perigosa”, enquanto a educação era fundamental.
Definir a educação sempre foi objeto de atenção de sociólogos e filósofos em todos os tempos. Há, todavia, em quase todos, um sentido comum: formar o homem para uma determinada sociedade. Como disse Karl Mannheim, ” a educação não molda o homem em abstrato, mas de uma dada sociedade e para ela”. Essa educação tem por principal objetivo enquadrar o homem dentro do esquema social vigente, fazendo-o aceitar todas as crenças, valores, tabus, preconceitos em vigor, a fim de transformá-lo em uma criatura alienada, capaz de achar a situação em que se encontra ou em que vive como feita e determinada por Deus para todo o sempre.
Toda a filosofia da educação era, nos países de sistema fascista ou nazista, e continua sendo em alguns países democráticos de hoje, a mesma que fora no passado. Essa filosofia compreende uma série de normas, algumas vezes ostensivas, freqüentemente ocultas, que visam: 1) a deificação do trabalho; 2)eliminar do jovem – e conseqüentemente do adulto – todo espírito de rebeldia, substituindo-o pela obediência passiva aos pais, aos mestres, aos patrões, aos chefes hierárquicos, às autoridades; 3) o respeito aos dogmas, valores, tabus dos adultos; 4)quebrar a vontade, o sentimento de independência e de livre criação. Daí resulta, em primeiro lugar, a despersonalização do homem, o conservadorismo. Os americanos possuem uma frase típica que passa de pais para filhos, de geração a geração: o que era bom para meu pai, é bom para mim. Mas há muitas outras fórmulas que são igualmente incutidas nos jovens: o mundo é imutável e ninguém vai consertá-lo; tudo o que acontece é por vontade de Deus, que escreve direito por linhas tortas; sempre haverá ricos e pobres. E outras do mesmo estilo.
A mulher é ainda mais sacrificada, educada desde cedo, há milhares de gerações, para a submissão ao homem, seja este seu pai, marido ou irmão. É cercada de tabus, preconceitos, restrições morais e jurídicas que a transformam em um ser alienado, um objeto do homem, que serve apenas para servir ao homem, no trabalho e no amor. Além da “educação” que recebe em casa e na escola, há ainda essas milhares de “revistas feministas” que simplesmente as embrutecem e idiotizam.
Para o bom êxito desse tipo de educação para homens e mulheres, jovens e adultos, não basta inculcar nos espíritos essas idéias de submissão. Há, atualmente, e cada vez mais, com o aperfeiçoamento dos “métodos pedagógicos” um verdadeiro conjunto de processos que incluem a lavagem cerebral, a propaganda pelos livros apropriados, as histórias em quadrinhos, o cinema e particularmente a televisão. E, finalmente, o terror, desde a supressão da sobremesa, à cadeia e ao desemprego.
Assim se forma o homem de nossa sociedade, para que nada mude e tudo continue como está, em benefício dos interessados.
Leôncio Basbaum – Alienação e Humanismo, pags. 39, 41, 44, 45, Editora Fulgor, São Paulo, Capítulo 3, Item A: A ideologia do boi. Comprar Livro.